:: :: :: :: Sábado, Abril 30, 2005 :: :: :: ::
Engraçado, esse post vem logo após um poema que escrevi numa época em que estava lendo muito sobre jornais alternativos na época da ditadura. Eu não sofro censura, sou minha própria editora e, aliás, tenho toda liberdade editorial do mundo. Mas não tenho mais razões para escrever aqui. Para sempre? Para sempre é muito tempo... Mas digo que esse blog vai ficar parado por tempo indeterminado... Ah, por enquanto, vou estar em outro endereço, Filme do dia. Lá, eu vou exercitar meu potencial jornalístico com as minhas resenhas. É isso. Adieu...
:: Andressa Priscila :: 1:06 AM
:: :: :: :: Quinta-feira, Abril 21, 2005 :: :: :: ::
Muitas idéias pendentes
Poucos rumos possíveis
Fogo nas veias efervescentes
Gelo nos corações sem vez
Nem tudo tem fim
Só o que foi além de você e de mim.
:: Andressa Priscila :: 3:55 PM
:: :: :: :: Sexta-feira, Abril 08, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 1:28 AM
:: :: :: :: Sábado, Março 12, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 1:52 PM
:: :: :: :: Sábado, Março 05, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 8:23 PM
:: :: :: :: Domingo, Fevereiro 27, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 2:02 AM
:: :: :: :: Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 7:16 PM
:: :: :: :: Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 12:36 PM
:: :: :: :: Sábado, Fevereiro 12, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 11:54 AM
:: :: :: :: Terça-feira, Fevereiro 01, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 12:55 PM
:: :: :: :: Quarta-feira, Janeiro 19, 2005 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 7:02 PM
:: :: :: :: Sábado, Dezembro 25, 2004 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 4:01 PM
:: :: :: :: Quinta-feira, Dezembro 02, 2004 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 12:33 PM
:: :: :: :: Quarta-feira, Novembro 24, 2004 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 11:16 AM
:: :: :: :: Domingo, Novembro 14, 2004 :: :: :: ::
:: Andressa Priscila :: 1:40 PM
:: Fale comigo ::
Primeiro veio o espanto. Não, foi a surpresa. Não, não. Foi admiração. Quem era aquela menina de uns onze anos que o espelho estampava em sua magnitude? Como ela estava linda! O rosto cândido, parcialmente obscurecido pela sombra, exibia toda a placidez de uma menina alegre e feliz. Nem o peso dos anos, das preocupações, das filas de banco, dos telefonemas não retornados, nada disso abatia a aura da garotinha. Tudo se rendia àquela serenidade quase celestial.
O doce sorriso tímido entregou a felicidade fortuita, que tornava qualquer resquício de tristeza uma vaga lembrança. Diante da imponência daquele semblante, tudo parecia perfeito. Até os cabelos despenteados contribuíam com a harmonia do momento. Os olhinhos amendoados brilhavam orgulhosos de sua cor de terra, a mãe fértil da natureza. De repente eles pareceram chocolates e, um delicioso aroma percorreu minhas narinas. Aquela saborosa sinestesia levou-me a um estado de êxtase, do qual eu jamais queria me libertar. Eu quis nunca ter desejado que os olhinhos fossem azuis, a gélida cor dos mares, a cor do céu distante. Como eu amei a terra quente, que proporciona inúmeras sensações, e não apenas um olhar indiferente.
Todas aquelas imperfeições tornavam a garotinha sublime. Mas quem era ela? Como ela foi parar lá? Eu fiquei me indagando e acabei por perceber que ela não era o que fui, nem era o que sou e tampouco era o que serei. Eu não me via daquela forma na infância. Talvez eu fosse especial e nunca tenha me dado conta. Talvez aquela seja a versão de mim mesma que escolhi guardar na memória. Mas eu não conseguia raciocinar naquele momento. Simplesmente fiquei estupefata.
Eu sabia que aquela não era eu, embora eu tivesse o pueril desejo de que tudo fosse real. Pensei que meus olhos estavam me pregando uma peça. Logo tive a certeza de que aquilo realmente estava acontecendo. Saboreei cada segundo diante da garotinha. Foram poucos instantes e, a cada instante passado, uma parte daquela meninice se esvaía. Quando dei por mim, as rugas estavam de volta. Uma a uma, elas chegaram sem pedir licença. Também, as olheiras, as manchas, os cabelos desgrenhados, tudo estava lá.
Então tudo ficou claro. A menina esteve lá. O sopro delicioso que a trouxe, também a levou. Se um momento sublime me fez chegar às mais alegres reminiscências da época áurea da juventude, que por instantes venceu os dissabores da vida, um simples pensamento foi capaz de acabar com o sonho. A curiosidade de tantos porquês chegou à verdade. A ânsia de perpetuar o momento traiu a infância. Crianças não se perguntam se terão a chance de reviver um momento, porque acreditam que sim. Elas simplesmente vivem e isso basta. Eu me apeguei tanto àquilo, que o medo de perder a chance de ser aquela garotinha explicitou tudo. Eu não era mais uma garotinha.
por Sofia em 7/1/2004
P.S.: esse foi o último texto da Sofia e, agora que esses textos acabaram, a sorte de Sofia está lançada... o que será que acontecerá com ela? nem eu sei...
por Sofia em 12/12/2003
por Sofia em 2/12/2003
por Sofia em 26/11/2003
por Sofia em 16/11/2003
por Sofia em 10/11/2003
por Sofia em 4/11/2003
*-*-*
Quero dedicar esse post ao meu hobby favorito e sobre o qual não falei muito nesse blog. O cinema. Aí vão as considerações do meu ano cinematográfico. Uma pequena retrospectiva / análise sob o meu ponto de vista:
Eu ia colocar os 10 melhores filmes do ano, mas como não quis deixar de mencionar alguns filmes, colocarei os 15.
15 - O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Vocês devem estar pensando: mas esse filme é do ano passado. De fato, o lançamento foi exatamente há um ano, mas vou considerá-lo como deste ano, já que vocês verão nesta lista outros filmes da mesma época. Só um detalhe, esse foi o meu favorito do ano passado também.
14 - Peixe grande e suas histórias maravilhosas
Ewan McGregor protagoniza esse belo e fantástico filme, que conta a história de um homem que sabia inventar histórias para lá de surreais (ou apenas dava uns toques mágicos à realidade) como ninguém.
13 - Os Incríveis
Esse recente lançamento da Pixar merece destaque por ser um desenho inteligente e divertido, mostrando que não só os super heróis precisam de super poderes, mas que pessoas comuns, às voltas com os problemas do dia-a-dia também são uma espécie de super heróis.
12 - Na captura dos Friedmans
O filme é um documentário muito bem elaborado, que conta um horrendo caso de uma família de classe média americana que vê suas sensíveis bases se abalarem às voltas com a acusação do pai da famíla acusado de pedofilia, assim como um de seus filhos. Sem acusar ou defender propriamente, o filme permite que cada espectador tire suas próprias conclusões sobre o caso.
11 - Shrek 2
Não poderia faltar essa excelente e superior continuação de um filme também espetacular. Shrek 2 diverte mais aos adultos do que às crianças com seu humor divertidíssimo.
10 - Bem me quer, mal me quer
Essa produção francesa é esplêndida. Contando a mesma história sob dois pontos de vista o filme consegue mostrar quão diferente pode ser a realidade a depender de como ela é interpretada.
9 - Má Educação
O novo e semi autobiográfico filme do espanhol Almodóvar comprova o talento do diretor, assim como o talento do mexicano Gael García Bernal.
8 - Diários de Motocicleta
Novamente o talento de Gael dá brilho a um excelente filme, que dessa vez foi realizado nas mãos do brasileiro Walter Salles e que foi indicado ao Globo de Ouro de filme estrangeiro. Agora é esperar o reconhecimento dessa interessante viagem de Che Guevara pela América Latina.
7 - Adeus, Lênin
O filme é uma produção alemã que retrata os conflitos e dificuldades de adaptação dos alemães orientais logo após a queda do muro de Berlim, através de um belíssimo drama familiar.
6 - Sobre meninos e lobos
Clint Eastwood dirigiu este filme sobre a violência e suas conseqüências, com brilhantes atuações, principalmente de Sean Penn que levou o Oscar de melhor ator pelo papel.
5 - Dolls
O filme do japonês Takeshi Kitano é uma paisagem viva. O trágico drama sobre histórias (tristes) de amor representa a tristeza e solidão humana, com personagens infelizes inseridos num universo de paisagens magníficas, uma interessante dicotomia.
4 - As invasões bárbaras
Denys Arcand dirigiu essa continuação de O declínio do império americano. Um filme repleto de diálogos inteligentes, com uma história muito comovente e ótimos atores. Chorei feito um bebê, ao assistir a esse inesquecível filme. Oscar de melhor filme estrangeiro e prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes, entre outros.
3 - Dogville
O primeiro filme de uma trilogia contando a saga de Grace, no caso vivida por Nicole Kidman, merece destaque pela inovação e a forma ousada e criativa de se contar uma história, além da excelente direção do excêntrico Lars Von Trier e das atuações convincentes e complicadas, já que não existem cenários no filme. Torço para que Manderlay faça jus ao primeiro filme.
2 - 21 Gramas
Outro filme que me marcou muito e me levou a ser fã do diretor Alejandro González Iñarritu, foi esse. Naomi Watts, Sean Penn e Benicio Del Toro brilham nesse drama com excelente edição e personagens em frangalhos emocionalmente. A fotografia granulada e que torna tudo mais feio também merece destaque por transformar tudo nesse filme mais sofrido e doloroso.
1 - Brilho eterno de uma mente sem lembranças
É a comédia romântica mais encantadora que eu já vi. Roteirizado pelo competente e criativo Charlie Kaufman, o filme traz interpretações graciosas de Jim Carrey e Kate Winslet. Tudo é impecável, do roteiro surreal à direção condizente e às atuações convincentes. Esse eu realmente recomendo. Para ver e rever.
Decepção do ano:
Cold Mountain
nem Jude Law consegue salvar esse filme chato e com interpretações ruins de Nicole Kidman e Oscar discutível para Renée Zellwegger.
Fiasco:
Van Helsing
Um dos piores filmes que eu já vi. Efeitos especiais e cenas de suspense risíveis. Nem Hugh Jackman vale a pena.
Polêmica:
A Paixão de Cristo - o filme de Mel Gibson deu no que falar. A direção é competente, as atuações também, mas o roteiro se revela preconceituoso.
Amém - filme que conta as relações nazistas da igreja católica e os conflitos de um cientista nazista comovido com o drama do holocausto.
Seqüências bem sucedidas:
Homem-Aranha 2 - ainda melhor que o primeiro
Shrek 2 - mais inteligente e divertido que o primeiro
Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban - o filme mais maduro e sombrio da série
A supremacia Bourne - tão eletrizante quanto o primeiro
Bateram na trave:
Tróia - apesar do elenco lindo e da megaprodução, as atuações são muito artificiais, exceto a de Eric Bana e Pete O¿ Toole, os que soam reais.
A Vila - não questiono o talento de M. Night Shyamalan como diretor, mas isso não vale para o lado roteirista do indiano.
Bridget Jones no limite da razão - Exceto por uma ou duas cenas, a continuação da divertida comédia é um equívoco.
Doces surpresas:
Aos treze - com roteiro escrito por uma adolescente ex-barra pesada, o filme retrata muito bem os dramas da adolescência.
Albergue Espanhol - um mix de culturas européias constrói uma interessante comédia.
Raízes do Brasil - a vida de Sérgio Buarque de Hollanda é cheia de pormenores interessantíssimos.
Mar Aberto - merece destaque por ter sido uma produção com duas pessoas na equipe técnica e muito empenho em realizar um filme de suspense com tubarões e sem efeitos especiais.
Encantadora de Baleias - uma tribo neozelandesa com uma cultura muito diferente da ocidental mostram valores maiores que questões culturais.
Monsieur N - o fim da vida de Napoleão como você nunca viu.
Capitão Sky e o mundo de amanhã - Filme com cenários digitais. O humor canalha é divertido. E com Jude Law como herói. Quer mais?
Menções honrosas:
Separações - uma das melhores comédias românticas que eu já vi ¿ e é brasileiríssima!
Cazuza: o tempo não pára - apesar de o cantor ser endeusado, vale a pena.
A janela secreta - Johnny Depp é sempre Johnny Depp.
Encontros e Desencontros - o segundo filme de Sofia Coppola foi superestimado pela crítica, mas não deixa de ser uma graça.
Moça com brinco de pérola - Colin Firth já chama atenção, mas a fotografia sem igual é uma atração a parte.
Igual a tudo na vida - Woody Allen não poderia faltar na minha lista.
P.S.: nesse ano eu vi o primeiro e o último filme de Jean Luc Godard. Primeiro eu vi o último, Nossa Música, o qual eu não gostei (talvez porque não tenha entendido, mas tem filmes que eu não entendo e gosto mesmo assim). Essa semana eu assisti a Acossado, o primeiro filme do diretor francês, e surpresa: eu gostei! Certas pessoas disseram que Godard é chato e eu concordei, mas retiro o que disse, então afirmo: Godard não é para todos...
O peso dos sonhos de uma pré-adolescente absolutamente comum. O peso de uma marionete da Indústria Cultural, dos desejos impressos para serem consumidos por mocinhas inocentes e sonhadoras, das verbas que desviei, ao deixar de comprar guloseimas na cantina do colégio para alimentar meu vício. Ainda reconheço aquele sorriso. Leonardo DiCaprio continua o mesmo, do jeito que o deixei. Os olhos azuis naturalmente reluzentes brilhavam sob o reflexo da luz no plástico. Não pude deixar de fazer uma auto-análise daquela época. Tempos românticos, em que eu queria ser a Rose de Titanic, ou a Julieta de Romeu + Julieta.
Devo ter mais fotos do Leonardo DiCaprio do que fotos de mim mesma, o que não é motivo de orgulho. Mas não procuro ver com maus olhos também. Minha paixão por cinema vem dessa época. Se antes conhecia os filmes pelos atores (bonitos), hoje os conheço pelos diretores, principalmente. Meu gosto mudou, mas ainda guardo resquícios da mocinha romântica que se apaixona pela atmosfera cinematográfica, mesmo que ela não seja estampada por rostinhos bonitos. Até porque, a beleza transcende um par de olhos azuis e madeixas douradas. Acredito, inclusive, que esta avaliação superficial da beleza ofenda as pessoas realmente belas. Já me perdoei por não pensar assim aos doze anos.
O que me preocupa é que as garotinhas crescem assim. É uma fase que não passa. Outro dia, vi uma página na Internet de fãs do Big Brother. E aquelas celebridades enlatadas que mal aparecem na mídia, já têm fã-clube? Pior, ficam famosos sem ter talento para nada além de sorrir para os fotógrafos. Os fãs os adoram sem nem saber o porquê. Pessoas que acumulam muito mais coisas do que a minha simplória pasta. Eu não gosto da palavra fã, prefiro me declarar admiradora. Admiro Woody Allen, Luís Buñuel e Ingmar Bergman, por exemplo. Mas eu me justifico dizendo que todos eles fizeram filmes fantásticos, porém nem tudo é perfeito, então pode se assistir a um Buñuel que não é genial.
O mais engraçado é que figuras como o esquálido e desengonçado Woody Allen me parecem sedutoras, muito mais do que aqueles galãs de filmes água com açúcar, que mesmo com uma figura harmoniosa, são apenas padrões de beleza clichê. Se antes eu queria fazer cinema porque queria que a minha vida fosse um filme, agora quero fazer com que a vida seja um filme, e que estes retratem as peculiaridades, os amores, os pesares, as injustiças e as belezas do mundo. O mundo não é o do sorriso maroto de Leonardo DiCaprio. Os caminhos que o cinema vêm trilhando muitas vezes o levam a direções equivocadas, indo parar num mundo de big brothers. A minha sorte é que esse mesmo mundo dá muitas voltas. É por isso que eu digo: às vezes é bom mudar.
Eu odeio quando elas se fazem de vítima. Nunca obriguei Ana a fazer nada. Não tenho culpa de que as mulheres são vulneráveis, não resistem a certas palavras doces e uma taça de champanha. Eu não as embebedo. Elas fazem por que querem. Soraia, a recepcionista do escritório, certamente sabe do escândalo de Ana, mas meu sorriso dissipou qualquer sombra que ela visse em mim. Ou então, confirmou minha índole, e isso a atraiu.
Sou um apaixonado pelas mulheres confesso. Francamente, não vejo mal nisso. Mas Virgínia via. Tão próxima e tão distante simultaneamente. Ela é tímida, doce, do tipo que fala suavemente, quase sussurrando. Ela sorria discretamente, balançava seus cabelos castanhos e observava tudo o que acontecia ao seu redor atentamente, olhando pelos cantos dos olhos. Que mulher irresistível! Não vou dizer que ela era a mais linda, a mais charmosa de todas, porque todas as mulheres são especiais. Eu diria que, para uma mulher chamar a minha atenção, ela precisa ser mulher apenas.
A primeira vez que vi Virgínia foi num café. Ela estava sozinha, parecia impaciente, não parava de consultar o relógio. Ela bebia o seu frappé com tanta delicadeza! Parecia uma criança, rindo sozinha e brincando com o canudo. Eu dava qualquer coisa pelos seus pensamentos. De certo, ela pensava no Quebra-Nozes, porque saiu do café a passos rápidos, em direção ao teatro que fica a poucas quadras de lá. Eu a segui, obviamente, e logo comprei um ingresso para a apresentação daquela noite. Foi assim que descobri que Virgínia, o nome que tinha no cartaz, era a prima ballerina da companhia. Eu a reconheceria entre mil mulheres. Não tive dúvidas quando a vi despontar aos rodopios, resplandecente, como a alegre Clara.
Comprei-lhe flores, chocolates, champanha, tudo para me aproximar dela. Assisti à apresentação inúmeras vezes, mas por alguma razão, Virgínia me rejeitava, era indiferente. Ela quase não fitava meus olhos. Eu não tardei a descobrir porque. Ela era sobrinha de Madalena, uma de minhas primeiras namoradas. O fim foi traumático. Madalena sempre foi dependente das outras pessoas, e não foi capaz de compreender meu espírito de liberdade. Certa vez ela me disse que sua ruína foi o meu olhar. Quando vi as duas juntas entendi tudo. Uma pitada de desilusão e uma boa dose de amargura dissuadiram a mocinha a não chegar perto de mim.
Virgínia tinha toda a esperança e otimismo que sua juventude ostentava. Os dissabores da tia não poderiam ser capazes de fazê-la reprimir a inevitável atração. Primeiro porque tudo o que é proibido é mais excitante, e depois, eu quase sempre tive as mulheres que desejei. Não seria aquela jovem mulher na primavera da inocência, que iria resistir aos encantos do amor, ou aos apelos da carne.
Passamos a nos ver furtivamente, quase todos os dias. Quanto mais nos víamos, mais aquela flor me encantava. Virgínia era tão inocente, que eu a apresentei a vários acompanhantes da vida. Eu diria que formalizei encontros inevitáveis. O primeiro deles foi o álcool. Ela se entusiasmou tanto com o champanha, que seu desejo se tornou insaciável. Ou quase, até eu concluir que ela estava demasiadamente bêbada. Não andava a passos delicados de bailarina, não demonstrava o pudor da educação hipócrita. Estava livre. Rapidamente ela passou a controlar o poder que o álcool exercia nela.
Virgínia tinha um espírito inquieto, mudava de humor constantemente, era sempre imprevisível. Depois de meses fazendo charme para me prender, e fazendo charme para me afastar, de súbito, ela teve um arroubo de paixão. Era um fim de tarde chuvoso, nós estávamos caminhando na praia, e a chuva nos pegou desprevenidos. Chegamos encharcados à minha casa. Os olhos de Virgínia brilhavam, ela observava tudo minuciosamente e, como que despertando de um sonho, ela me disse que tinha medo de morrer sem ter vivido tudo o que sonhara viver. Eu a beijei, acariciei seus cabelos, e falei que ela deveria tirar a roupa molhada. Virgínia sorriu e começou a se despir na minha frente. Ela ficou nua no ritmo da música que dançava sensualmente para mim. Não só nossos corpos famintos se uniram, mas nossas almas se atrelaram também. Na varanda, brindamos nus ao amor, deixamos que a chuva percorresse o calor de nossos corpos, sem nos importar com o resto do mundo. O vento soprava forte, espalhando os ares do amor por todos os lados.
Aquela tarde foi sublime. As outras que a sucederam, também. Mas o tempo é implacável com as relações. Vieram cobranças, desconfianças, indiferenças, rejeições, pormenores que aos poucos separaram nossas almas, que pareciam indivisíveis. A separação de corpos logo foi inevitável. Virgínia foi perdendo a graça. Eu não conseguia desejar uma mulher que mal me cumprimentava, já ia logo gritando suas suspeitas, seu ciúme exacerbado, como se toda a vizinhança merecesse satisfações da nossa vida conjugal.
Eu não admitia que ela me chamasse de infiel. Sempre fui leal aos meus sentimentos, e enquanto estive com uma mulher, não deixei que outra me possuísse. Eu apenas tenho relacionamentos próximos um do outro, mas não concomitantes. Não foi Leila que acabou com o meu relacionamento. Ela apenas era ela mesma. Uma vendedora de uma perfumaria, que quando eu passava perto, ficava inebriado, não sei se pelo aroma, ou se pela encantadora mulher. Eu amei Virgínia, não me arrependo de nossa relação. Eu acredito que os relacionamentos, quando perdem o frescor da novidade, vão descolorando a vida, até que ela se torna uma completa sombra.
Conto livremente inspirado no filme "L' Homme qui Aimait les Femmes" de François Truffaut.
Os passos firmes e a expressão sóbria disfarçavam a fragilidade da alma, denunciada pelos olhos brilhantes e tristes. Um turbilhão de idéias passava por sua cabeça. Não precisava se esforçar muito para lembrar do perfume que antes a inebriava. Todas as manhãs sentia-o tomar posse do corredor, do elevador e, aos poucos, de sua alma e de seu juízo.
Se a indagassem sobre como se apaixonou por ele, não saberia explicar. Só diria que o amor é um sentimento que seduz, ilude, parece algo simplório, doce, mas que te leva a um desgosto vicioso. Quanto mais ele te machuca, mais se precisa dele para melhorar. Então ela se lembrou de João e de sua própria ingenuidade. E desejou que João não fosse seu vizinho, desejou não ter nascido, desejou ter morrido, desejou que João não tivesse nascido, desejou que João tivesse morrido. E chorou.
Nada apaziguava a dor da rejeição. De que adiantavam os momentos felizes se agora era justamente isso que mais a feria? As lembranças dantes consideradas motivo de alegria se tornaram o pesadelo do presente, talvez do futuro. Aliás, futuro nebuloso para Violeta. Antes de João tiveram outros. As compatibilidades pareciam perfeitas, e os defeitos pareciam minimizáveis. Violeta sempre se iludiu. Mesmo sabendo que as relações estavam fadadas ao fracasso, ela insistia.
Violeta se culpava, culpava os homens, culpava o mundo. E continuava sofrendo. A idéia de não ser amada, de estar sozinha e abandonada a assolava. Violeta já não tinha mais esperança nem em João, nem nos outros. A culpa é do amor, que traz mais dores do que prazeres.
Violeta sentou-se na areia, vencida pela dor. Entregou-se à força da maresia, que desalinhava seus cabelos. Uma sensação de tempo perdido a perturbava ainda mais. Definitivamente, a solução seria não ter nascido. Esse mundo não era para Violeta. Quando ela percebeu que o amor não existe, o desgosto das desilusões anteriores amargou mais o sabor da vida. O tempo perdido consumia o resto de esperança que ela poderia cultivar.
A vida de Violeta não fazia mais sentido. Ela não conseguia assimilar a visão deturpada que ela insistia em acreditar ser real. O mundo é pior do que ela pensava, pior do que ela poderia suportar. E pensou em João, e sentiu seu cheiro, seu beijo, seu corpo. Mas João não estava ali. Era só o vento, o mar, a areia e Violeta. Eles segredaram algo que ninguém mais entenderia, tornaram-se cúmplices do sofrimento. A delicada Violeta ficou violenta. Deixou a razão escapar. Os atos eram passionais. E deitou-se na areia e chorou todas as mágoas. Não tardaria muito, um tal José, ou Caio, Eduardo, até mesmo outro João a faria esquecer o João passado, para chorar pelo João futuro.
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