:: :: :: :: Sábado, Abril 30, 2005 :: :: :: ::

Engraçado, esse post vem logo após um poema que escrevi numa época em que estava lendo muito sobre jornais alternativos na época da ditadura. Eu não sofro censura, sou minha própria editora e, aliás, tenho toda liberdade editorial do mundo. Mas não tenho mais razões para escrever aqui. Para sempre? Para sempre é muito tempo... Mas digo que esse blog vai ficar parado por tempo indeterminado... Ah, por enquanto, vou estar em outro endereço, Filme do dia. Lá, eu vou exercitar meu potencial jornalístico com as minhas resenhas. É isso. Adieu...

:: Andressa Priscila :: 1:06 AM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Quinta-feira, Abril 21, 2005 :: :: :: ::

Número zero

Muitas idéias pendentes
Poucos rumos possíveis
Fogo nas veias efervescentes
Gelo nos corações sem vez
Nem tudo tem fim
Só o que foi além de você e de mim.

:: Andressa Priscila :: 3:55 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Sexta-feira, Abril 08, 2005 :: :: :: ::

A menina dos olhos de terra


Primeiro veio o espanto. Não, foi a surpresa. Não, não. Foi admiração. Quem era aquela menina de uns onze anos que o espelho estampava em sua magnitude? Como ela estava linda! O rosto cândido, parcialmente obscurecido pela sombra, exibia toda a placidez de uma menina alegre e feliz. Nem o peso dos anos, das preocupações, das filas de banco, dos telefonemas não retornados, nada disso abatia a aura da garotinha. Tudo se rendia àquela serenidade quase celestial.
O doce sorriso tímido entregou a felicidade fortuita, que tornava qualquer resquício de tristeza uma vaga lembrança. Diante da imponência daquele semblante, tudo parecia perfeito. Até os cabelos despenteados contribuíam com a harmonia do momento. Os olhinhos amendoados brilhavam orgulhosos de sua cor de terra, a mãe fértil da natureza. De repente eles pareceram chocolates e, um delicioso aroma percorreu minhas narinas. Aquela saborosa sinestesia levou-me a um estado de êxtase, do qual eu jamais queria me libertar. Eu quis nunca ter desejado que os olhinhos fossem azuis, a gélida cor dos mares, a cor do céu distante. Como eu amei a terra quente, que proporciona inúmeras sensações, e não apenas um olhar indiferente.
Todas aquelas imperfeições tornavam a garotinha sublime. Mas quem era ela? Como ela foi parar lá? Eu fiquei me indagando e acabei por perceber que ela não era o que fui, nem era o que sou e tampouco era o que serei. Eu não me via daquela forma na infância. Talvez eu fosse especial e nunca tenha me dado conta. Talvez aquela seja a versão de mim mesma que escolhi guardar na memória. Mas eu não conseguia raciocinar naquele momento. Simplesmente fiquei estupefata.
Eu sabia que aquela não era eu, embora eu tivesse o pueril desejo de que tudo fosse real. Pensei que meus olhos estavam me pregando uma peça. Logo tive a certeza de que aquilo realmente estava acontecendo. Saboreei cada segundo diante da garotinha. Foram poucos instantes e, a cada instante passado, uma parte daquela meninice se esvaía. Quando dei por mim, as rugas estavam de volta. Uma a uma, elas chegaram sem pedir licença. Também, as olheiras, as manchas, os cabelos desgrenhados, tudo estava lá.
Então tudo ficou claro. A menina esteve lá. O sopro delicioso que a trouxe, também a levou. Se um momento sublime me fez chegar às mais alegres reminiscências da época áurea da juventude, que por instantes venceu os dissabores da vida, um simples pensamento foi capaz de acabar com o sonho. A curiosidade de tantos porquês chegou à verdade. A ânsia de perpetuar o momento traiu a infância. Crianças não se perguntam se terão a chance de reviver um momento, porque acreditam que sim. Elas simplesmente vivem e isso basta. Eu me apeguei tanto àquilo, que o medo de perder a chance de ser aquela garotinha explicitou tudo. Eu não era mais uma garotinha.

:: Andressa Priscila :: 1:28 AM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Sábado, Março 12, 2005 :: :: :: ::

Foi tudo muito rápido. Por um deslize meu, as coisas foram acontecendo sem que eu pudesse controlá-las. Quando acordei, ainda zonza, Giuseppe segurava minha mão, desejava-me feliz ano novo e dava graças a Deus por eu estar viva. Tudo aconteceu na noite de reveillon. Eu estava completamente sozinha, meus empregados haviam sido dispensados. Estava frio, o que aumentava minha solidão por não ter quem me esquentar. Não há nada mais triste que ficar sozinha na minha casa enorme, que parece não ter fim, e que tem quadros espalhados por todas as paredes. Os quadros eram de Amerigo e me trazem muitas lembranças, que me assustam. Os cachorros latiam energicamente e eu só queria dormir para esquecer a tristeza. Tomei todos os comprimidos de calmante que havia no vidro. A primeira coisa líquida que encontrei foi uma garrafa de vinho ao lado da minha cama. Bebi-a toda no gargalo. De repente tudo foi ficando escuro e eu não me lembro de mais nada. O médico disse que eu tive muita sorte por Giuseppe ter me encontrado pouco depois. Caso contrário, estaria morta agora. Giuseppe salvou a minha vida porque havia brigado com a namorada e queria conversar comigo. Eram 2h da manhã. Só fui saber disso depois que acordei. Giuseppe tinha namorada? Ele nunca me falara dela... Ele terminou o namoro porque não gosta mais dela. Ainda bem. Ele está precisando de consolo, pois está vulnerável e carente... Fiquei pensando se Maniac tivesse me encontrado, ao invés de Giuseppe. Ele teria se realizado. Como é necrófilo, ao me encontrar desacordada, gelada, quase morta... O bom de tudo isso é que o meu querido Giuseppe me jurou que não vai mais sair do meu pé. Agora ele vai passar a dormir aqui para cuidar de mim. E, com certeza, eu saberei me aproveitar disso.

por Sofia em 7/1/2004

P.S.: esse foi o último texto da Sofia e, agora que esses textos acabaram, a sorte de Sofia está lançada... o que será que acontecerá com ela? nem eu sei...

:: Andressa Priscila :: 1:52 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Sábado, Março 05, 2005 :: :: :: ::

Como eu sou iludida! Meu amor por Giuseppe está mais platônico do que nunca. Estar com Maniac me fez perceber que sou uma pessoa diferente de Amerigo. Ele me libertou. Por isso, serei eternamente grata. Eu concluí minha leitura de "Dom Quixote" em russo, e depois de ter lido esse livro pela enésima vez, vi o quanto não gosto de Cervantes. "A primavera" é chatíssima! Chega de Vivaldi. Agora ouço e toco Tchaikovsky, que é infinitamente melhor! Eu estou com medo, não sei mais quem sou. Sei que quero Giuseppe e um filho seu. É só o que sei. América, a cadela lassie, entrou em trabalho de parto. Giuseppe e eu fomos socorrê-la. América se contorcia de dor, havia sangue esparramado por todos os lados. Eu senti um prazer enorme em ver aquele sangue. Senti vontade de morrer naquele momento, só para o meu sangue escorrer daquele jeito. Como é lindo o contraste da alvura da minha pele com o escarlate do sangue! Dos quatros filhotes, a fêmea morreu e ficaram os três machinhos. Eu não fazia questão da fêmea mesmo. Os nomes, eu ainda não escolhi. Estou sendo uma excelente professora de fotografia e meu discípulo aprende muito bem. Fizemos o primeiro ensaio dele, no jardim. Eu estava completamente nua e ele me fotografava com tanto esmero! Foi maravilhoso vê-lo me contemplando, eu consegui me sentir amada, espiritualmente, mas amada. Passei horas despida na frente dele e nada aconteceu. Ele realmente não me deseja. Minha noite foi tão solitária! Conversei com o Sorrateiro, meu novo amigo da internet, até minha conexão cair. Falei com Maniac ao telefone e depois me vi sozinha novamente. Vesti um vestido lindo, vermelho de cetim. Coloquei um par de brincos de diamante e fui para a varanda. Chovia muito. E eu lavei a minha alma! Voltei para o meu quarto e me olhei no espelho. Estava toda molhada, despenteada, meu vestido contornando meu corpo, colado a ele. Nunca me senti tão bela antes! Quero morrer com essa imagem na minha cabeça. Liguei o rádio e abri a primeira garrafa da longa noite. Eu chorava tanto, que a tempestade parecia uma torneira e eu uma cachoeira. Ficaram as garrafas de vinho, a chuva, as lágrimas, a música e eu...

por Sofia em 12/12/2003

:: Andressa Priscila :: 8:23 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Domingo, Fevereiro 27, 2005 :: :: :: ::

Minha cabeça se tornou um emaranhado de pensamentos, que se entrelaçam, mas não se ligam, não têm conexão. Tudo começou com a revelação de Giuseppe. Ele confessou que me ama, no entanto, é um amor espiritual. Nossas almas se uniram, mas nossos corpos não. Ele não sente desejo por mim. Eu o amo. Quero o pacote completo, quero Giuseppe de corpo e alma. Essa situação me deixou muito atordoada, por isso, acabei saindo de casa. Entrei numa gôndola e vaguei por Veneza, como não fazia há muito tempo, sempre fotografando tudo que achava belo. Como Veneza é bela! Vi um bar chamado "ristorante do Amerigo" e resolvi entrar. Lá conheci o Maniac, um poeta maravilhosamente interessante e misterioso. Bebemos juntos, contei toda a minha vida a ele, que acabou me levando para casa. Eu estava cada vez mais quente e com aquele homem atraente ao meu lado... Convidei-o para entrar em minha casa e, quando percebi, estávamos no meu quarto. Nossa atração foi intensa. Maniac me devorava com os olhos. Eu bebia um gole de vinho e tirava uma peça de roupa. Lentamente, tirei o vestido, o sutiã, e ele apenas me contemplando. A calcinha foi arrancada com a força dos dentes dele. Até que ele me segurou e me jogou violentamente na cama, pegou a garrafa de vinho e derramou sobre o meu corpo. Ele começou a recitar um poema seu, e eu entendi que o vinho simbolizava sangue. Ele bebeu todo o sangue. Deixei ele fazer o que quis. Seus gestos eram violentos às vezes, mas eu gostei. Todo o meu ser queria ser possuído por aquele homem. Aquela criatura gélida foi penetrando em meu corpo quente, como se o gelo e o fogo se acariciassem. Senti arrepios e mais arrepios, calafrios e contrações. O ilustre desconhecido conseguiu me dar um prazer que Amerigo jamais me dera, embora ele tivesse estranhas manias. Ele me pediu para ficar de bruços em alguns momentos, porque queria representar a minha morte. Foi quase uma simulação de estupro, Maniac é forte e agressivo. Eu sei que ele é necrófilo, mas, sinceramente, não me importo. É apenas diferente. Durante o sexo, ele recitava suas poesias ao meu ouvido, só para me excitar ainda mais. Passamos a noite toda nesse intenso e efêmero relacionamento que é o sexo. Agora, estou me sentindo muito mais leve e serena, continuo amando e desejando Giuseppe e querendo conquistá-lo. Maniac foi maravilhoso e é importante. Se eu ainda o quero? Uma experiência como a que vivemos é inesquecível... Quem sabe?

por Sofia em 2/12/2003

:: Andressa Priscila :: 2:02 AM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005 :: :: :: ::

Se eu acreditasse em horóscopo, numerologia, tarô ou qualquer uma dessas crenças (não é uma crítica, eu apenas não acredito), eu diria que não nasci virada para a lua. Aliás, nasci numa sexta-feira 13, na lua minguante. Minha vida é uma seqüência de desgraças, as quais já citei anteriormente. Mas eu estou (ou pelo menos estava) progredindo. Convidei Giuseppe (o jardineiro) para tomar um vinho comigo. Ele receou, mas acabou aceitando o convite. Eu consegui conversar por três horas seguidas! E quando achei que tudo estava indo muito bem, veio a decepção. Giuseppe é uma criança! O rapazinho tem 19 aninhos (eu tenho 28) e é a pureza e inocência em pessoa. Ele é virgem... Nós temos várias coisas em comum. Ele adora literatura e diz que eu sou uma excelente pianista! Agora eu toco piano para ele. Eu sei que quando ele ouve, ele pensa em mim, e eu penso em cada coisa! Vou emprestar alguns livros a ele (empresto quantos ele quiser e quando ele quiser). Vou ensiná-lo a tocar piano também. Como é bom ter algum compromisso, algum objetivo, mesmo que não seja exatamente o que eu queria. Achei que Giuseppe seria um bronco, muito delicioso, mas bronco. Mas ele não é! Ele trabalha aqui para pagar os estudos. Como ele é inteligente! Só que poderia ser mais esperto. Pelo menos eu vou passar a conviver com ele diariamente. Ele quer aprender muito comigo e eu quero ensinar mais ainda! Muito mais do que ele pensa! Até voltei a gostar de fotografar. Desde a morte de Amerigo, eu não tirava foto alguma. Agora, fico escondida atrás das cortinas e fotografo Giuseppe trabalhando. Ele gosta, sente-se envaidecido. Eu inclusive pisei fora da minha casa, fotografei-o no jardim. Foi a imagem mais sublime que eu já vi, superou qualquer foto que papai tirou no Tibet (são as minhas favoritas dele). O sol se pondo, Giuseppe descabelado, todo molhado por ter acabado de regar as flores, suas mãos cheias de terra e um monte de flores ao redor. Eu queria que ele me tocasse com o mesmo vigor com que pega a terra. É tão sensual... Ele quer aprender a fotografar também. Posso ensiná-lo e ser sua modelo... Hoje eu não vou beber meu Castello di Farnatella, porque se eu bebesse, acho que explodiria... Se Giuseppe aceitar, podemos tomar uma champanha juntos, temos muito que comemorar, pelo menos, eu tenho!

por Sofia em 26/11/2003

:: Andressa Priscila :: 7:16 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 :: :: :: ::

Como de costume, tomei meu banho matinal. Quando saí do banheiro, minha toalha caiu e eu fiquei nua na frente da janela. Só que o Giuseppe (meu jardineiro) estava bem abaixo dela. Ele me viu nua e sorriu um sorriso malicioso. E eu gostei. Senti-me desejada, Amerigo nunca me olhou assim. Seu olhar exalava um desejo tão forte que eu consegui senti-lo me tocando. O que é isso? Como pude deixar isso acontecer? Que imoralidade! Durante a sesta, sonhei com Giuseppe. E que vontade eu tive de concretizar o sonho! Até tomei outro banho para ver se o calor passava... Ele é forte, saudável e bonito (e como), acho que ele seria um bom doador de genes. Só que nós nunca nos falamos. Meus olhos passaram o dia perseguindo-o e ele sempre sorrindo. De repente é porque ele só quis ser educado com a patroa. Gosto da palavra "patroa". Ela me põe no comando da situação. Eu poderia ordenar a ele para me fecundar quando eu quisesse... Que absurdo! Que indecência! Mas eu estou sentindo uma vontade ou desejo ou necessidade de possuir esse homem. Só não sei como fazê-lo. Eu poderia pedir a ele para me trazer umas flores para enfeitar meu quarto e aí... e aí nada! É impossível continuar. Que loucura! Mas ninguém precisa ficar sabendo. Acabou o expediente dele, ele foi embora. Ai ai, acho melhor tomar outro banho...

por Sofia em 16/11/2003

:: Andressa Priscila :: 12:36 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Sábado, Fevereiro 12, 2005 :: :: :: ::

Antes só do que mal-acompanhada. Vivo repetindo isso. É para me conformar ou me convencer? Acho que é para me conformar. A barriga de América (a lassie) está cada vez maior! Sonhei que era meu bebê! Mas aquele rostinho doce, como quando eu era pequena, foi sofrendo uma metamorfose e se transformou em Amerigo em estado de putrefação! Foi um pesadelo horrível! Acho que estou ficando paranóica. Não consegui manter nenhuma conversa proveitosa na Internet. Eu não quero morrer antes de ter um filho. E se eu morrer amanhã? Para onde é que eu vou? Dá para ter um filho no além? Existe além? Se existisse eu poderia ter um filho com Amerigo! Mas como eu não sei, não quero arriscar. Até falei com um indivíduo que pareceu gostar de vinho e me deu o e-mail dele, ou seria dela? Quem me garante que é um homem? Poderia ser uma mulher debochando de mim, ou uma lésbica tentando se aproximar. Lésbica não faz filho, então não serve. Quero um homem. Se alguém se interessar por mim, avise. O cara (será?) do vinho quis conversar comigo, mas eu não tive coragem! O que eu ia dizer? Que estou lendo "Dom Quixote" em russo! Que estou aprendendo a tocar "A Primavera" de Vivaldi em violino (porque em piano eu já toco)! Amerigo adorava Vivaldi! Se ele soubesse o que eu realmente sou, sairia correndo na hora! Uma mulher que só conversa com cachorros não pode ser normal. Eu tenho medo de gente, meus cães me completam. Só que eles também não fazem filho! Se eu pudesse me auto-engravidar! De repente eu me clono. Já que o Antinori é italiano, está próximo daqui, eu poderia me candidatar a me clonar. Não... Para isso eu teria que interagir com um monte de gente. Foi um lapso. Passou. Mas eu estou realmente necessitada de ter um filho, quem se habilita? Será que o cara (?) do vinho gostaria de ter fiilhos? Ele pode ser estéril, ou pode ter feito vasectomia. Ou então ele poderia ter algum defeito congênito e hereditário! Não quero ter um filho defeituoso. Tenho que falar com ele... Só que agora eu vou pensar num nome para o filhote da América.

por Sofia em 10/11/2003

:: Andressa Priscila :: 11:54 AM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Terça-feira, Fevereiro 01, 2005 :: :: :: ::

Estive pensando em o que seria covardia. Resolvi viver e não sei se isso é coragem ou se é medo de me matar. Por isso não consegui definir se sou uma pessoa corajosa ou covarde. O jeito foi afogar minhas mágoas numa garrafa de Castello di Farnetella e chorar. América (minha cadela lassie) está prenhe e eu a invejo tanto! Como queria que fosse eu! Minha pequena Mônica nasceu morta e eu nunca mais engravidei. Mas sei que ainda posso ter um filho. O problema é quem iria querer ter um filho comigo? Não sei mais o que é sexo. Meu prazer é beber vinho e comer chocolate. Amerigo morreu há seis anos. Sabe o que é passar esse tempo sem tocar num homem? Na verdade, o único homem que vi durante esse tempo foi meu jardineiro, ele lá fora e eu aqui dentro. Dou ordens à minha governanta e ela repassa aos outros empregados. Desde o enterro de Amerigo, não saí uma vez desta casa. E agora preciso arranjar um macho para me fecundar! Como? Acho que sou uma pessoa inexistente. É possível. Minhas compras são feitas pelos meus empregados, minha vinícola tem um administrador com quem eu não falo, até minhas roupas são mandadas por meu estilista pra mim. Só uso vestidos. Amerigo adorava me ver de vestido! Eu não queria fazer inseminação artificial, quero engravidar do modo natural. Eu só faço sexo com amor e eu não amo ninguém além de Amerigo. Mas ele está morto! E eu não quero me apaixonar por outra pessoa! Ele não iria gostar. Nem eu. Sou uma contradição. Vou pensar num jeito de ter um bebê. Também não quero adotar uma criança, quero que ela saia do meu ventre (e que juiz sem juízo daria a guarda de uma criança para mim?). Meu único contato com o mundo é a Internet. Só que sempre fui contra relacionamentos virtuais, mas agora tenho que reconsiderar meus conceitos, essa é uma boa maneira de procurar um homem. Ele não precisaria saber que sou rica e alcoólatra. Mas ele também poderia ser um estuprador-assassino-mentiroso. Que complicação! Vendo por outro lado, isso pode ser bom. Se ele for uma pessoa legal, nós poderíamos ter um bebê, mas se ele for um assassino, ele me mata e resolve meu problema de qualquer jeito. Estou perdida! Acho que vou tomar mais um Castello di Farnetella...

por Sofia em 4/11/2003

:: Andressa Priscila :: 12:55 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Quarta-feira, Janeiro 19, 2005 :: :: :: ::

Em novembro de 2004 esse blog fez seu primeiro aniversário. Como dona desnaturada que sou, deixei a data passar em branco. Agora, meses depois, inauguro um novo visual e lanço uma série de oito textos que escrevi entre outubro de 2003 e janeiro de 2004 para um blog coletivo, sobre o universo feminino. Sofia é uma mulher amargurada e deprimida, que não sabe lidar com os fantasmas do passado, com a solidão do presente e com as incertezas do futuro. Este é o perfil dela: 28 anos. È de Copenhague, Dinamarca. Vive em Veneza. Não é formada em nada e nunca trabalhou. Viúva. Completamente isolada, é obcecada pela idéia de ter um filho. Seus pais eram fotógrafos brasileiros, por isso, ama fotografia. Não sabe lidar com as pessoas e tem uma tendência suicida. Aí vai o primeiro texto.


O princípio do fim


Este momento é de vida ou morte, literalmente. Hoje faz dez anos que a série de desgraças na minha vida começou. Minha mãe morreu no meu parto. Meu pai era fotógrafo e passou a vida viajando pelo mundo, sempre me levando junto. Éramos só nós dois até eu conhecer o Amerigo, um amigo de papai. A paixão foi fulminante. Eu tinha 18 e ele 50 anos. Eu engravidei, nós nos casamos, e o bebê nasceu morto. E hoje minha filhinha faria 10 anos. Logo depois, foi a vez de papai morrer num acidente de barco no Nepal. Amerigo não resistiu ao câncer e me deixou sozinha no mundo. Fui viver em Veneza, pois Amerigo era de lá e eu queria ter o máximo possível de lembranças dele. A minha dor só piorou. Mas o que eu poderia fazer? Não tenho família, nem amigos, não tinha pra onde ir. O que sou eu nesse mundo? Tenho muito dinheiro, e daí? Não tenho nem como gastá-lo. Os vinhos que tomo vêm da vinícola de Amerigo, aliás, minha. Eu sou o ócio em pessoa. Não faço nada da vida. Se me perguntarem o que fiz em dez anos, respondo: aprendi a tocar piano (só porque eu nunca gostei, e Amerigo amava), li "Dom Quixote" inúmeras vezes (adivinhem: era o livro favorito dele) e em vários idiomas. É válido lembrar que eu tomei pelo menos 3.650 garrafas de vinho (tomo uma por dia, no mínimo) e meu fígado pode estar desenvolvendo uma cirrose. Deduz-se que eu sou alcoólatra. Mas isso tudo não serve pra nada! De que adianta ser uma exímia pianista e falar várias línguas, se não tenho nem com quem falar "bom dia". Empregados, tenho vários. Todos me acham uma maluca-psicótica-suicida, o que não deixa de ser verdade. Uma pessoa que só conversa com seus cães (tenho cinco: Amerigo, América, Mônica, Nora e Dom Quixote) não pode ser muito normal. O fato é que não suporto mais a minha vã existência e estou num dilema. Nesta inércia não quero mais viver. É aí que entra o dilema: não sei se quero voltar à vida ou abandoná-la de vez.

:: Andressa Priscila :: 7:02 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Sábado, Dezembro 25, 2004 :: :: :: ::

Em primeiro lugar, quero desejar a todos os leitores deste blog um FELIZ NATAL!!! Que vocês tenham um 2005 melhor que 2004, um ano cheio de alegrias, realizações, conquistas, paz, harmonia, felicidade, amor, emoção, diversão, e por aí vai... Beijos para vocês! Tudo de bom!

*-*-*

Quero dedicar esse post ao meu hobby favorito e sobre o qual não falei muito nesse blog. O cinema. Aí vão as considerações do meu ano cinematográfico. Uma pequena retrospectiva / análise sob o meu ponto de vista:


Eu ia colocar os 10 melhores filmes do ano, mas como não quis deixar de mencionar alguns filmes, colocarei os 15.

15 - O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Vocês devem estar pensando: mas esse filme é do ano passado. De fato, o lançamento foi exatamente há um ano, mas vou considerá-lo como deste ano, já que vocês verão nesta lista outros filmes da mesma época. Só um detalhe, esse foi o meu favorito do ano passado também.
14 - Peixe grande e suas histórias maravilhosas
Ewan McGregor protagoniza esse belo e fantástico filme, que conta a história de um homem que sabia inventar histórias para lá de surreais (ou apenas dava uns toques mágicos à realidade) como ninguém.
13 - Os Incríveis
Esse recente lançamento da Pixar merece destaque por ser um desenho inteligente e divertido, mostrando que não só os super heróis precisam de super poderes, mas que pessoas comuns, às voltas com os problemas do dia-a-dia também são uma espécie de super heróis.
12 - Na captura dos Friedmans
O filme é um documentário muito bem elaborado, que conta um horrendo caso de uma família de classe média americana que vê suas sensíveis bases se abalarem às voltas com a acusação do pai da famíla acusado de pedofilia, assim como um de seus filhos. Sem acusar ou defender propriamente, o filme permite que cada espectador tire suas próprias conclusões sobre o caso.
11 - Shrek 2
Não poderia faltar essa excelente e superior continuação de um filme também espetacular. Shrek 2 diverte mais aos adultos do que às crianças com seu humor divertidíssimo.
10 - Bem me quer, mal me quer
Essa produção francesa é esplêndida. Contando a mesma história sob dois pontos de vista o filme consegue mostrar quão diferente pode ser a realidade a depender de como ela é interpretada.
9 - Má Educação
O novo e semi autobiográfico filme do espanhol Almodóvar comprova o talento do diretor, assim como o talento do mexicano Gael García Bernal.
8 - Diários de Motocicleta
Novamente o talento de Gael dá brilho a um excelente filme, que dessa vez foi realizado nas mãos do brasileiro Walter Salles e que foi indicado ao Globo de Ouro de filme estrangeiro. Agora é esperar o reconhecimento dessa interessante viagem de Che Guevara pela América Latina.
7 - Adeus, Lênin
O filme é uma produção alemã que retrata os conflitos e dificuldades de adaptação dos alemães orientais logo após a queda do muro de Berlim, através de um belíssimo drama familiar.
6 - Sobre meninos e lobos
Clint Eastwood dirigiu este filme sobre a violência e suas conseqüências, com brilhantes atuações, principalmente de Sean Penn que levou o Oscar de melhor ator pelo papel.
5 - Dolls
O filme do japonês Takeshi Kitano é uma paisagem viva. O trágico drama sobre histórias (tristes) de amor representa a tristeza e solidão humana, com personagens infelizes inseridos num universo de paisagens magníficas, uma interessante dicotomia.
4 - As invasões bárbaras
Denys Arcand dirigiu essa continuação de O declínio do império americano. Um filme repleto de diálogos inteligentes, com uma história muito comovente e ótimos atores. Chorei feito um bebê, ao assistir a esse inesquecível filme. Oscar de melhor filme estrangeiro e prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes, entre outros.
3 - Dogville
O primeiro filme de uma trilogia contando a saga de Grace, no caso vivida por Nicole Kidman, merece destaque pela inovação e a forma ousada e criativa de se contar uma história, além da excelente direção do excêntrico Lars Von Trier e das atuações convincentes e complicadas, já que não existem cenários no filme. Torço para que Manderlay faça jus ao primeiro filme.
2 - 21 Gramas
Outro filme que me marcou muito e me levou a ser fã do diretor Alejandro González Iñarritu, foi esse. Naomi Watts, Sean Penn e Benicio Del Toro brilham nesse drama com excelente edição e personagens em frangalhos emocionalmente. A fotografia granulada e que torna tudo mais feio também merece destaque por transformar tudo nesse filme mais sofrido e doloroso.
1 - Brilho eterno de uma mente sem lembranças
É a comédia romântica mais encantadora que eu já vi. Roteirizado pelo competente e criativo Charlie Kaufman, o filme traz interpretações graciosas de Jim Carrey e Kate Winslet. Tudo é impecável, do roteiro surreal à direção condizente e às atuações convincentes. Esse eu realmente recomendo. Para ver e rever.

Decepção do ano:
Cold Mountain
nem Jude Law consegue salvar esse filme chato e com interpretações ruins de Nicole Kidman e Oscar discutível para Renée Zellwegger.

Fiasco:
Van Helsing
Um dos piores filmes que eu já vi. Efeitos especiais e cenas de suspense risíveis. Nem Hugh Jackman vale a pena.

Polêmica:
A Paixão de Cristo - o filme de Mel Gibson deu no que falar. A direção é competente, as atuações também, mas o roteiro se revela preconceituoso.
Amém - filme que conta as relações nazistas da igreja católica e os conflitos de um cientista nazista comovido com o drama do holocausto.

Seqüências bem sucedidas:
Homem-Aranha 2 - ainda melhor que o primeiro
Shrek 2 - mais inteligente e divertido que o primeiro
Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban - o filme mais maduro e sombrio da série
A supremacia Bourne - tão eletrizante quanto o primeiro

Bateram na trave:
Tróia - apesar do elenco lindo e da megaprodução, as atuações são muito artificiais, exceto a de Eric Bana e Pete O¿ Toole, os que soam reais.
A Vila - não questiono o talento de M. Night Shyamalan como diretor, mas isso não vale para o lado roteirista do indiano.
Bridget Jones no limite da razão - Exceto por uma ou duas cenas, a continuação da divertida comédia é um equívoco.

Doces surpresas:
Aos treze - com roteiro escrito por uma adolescente ex-barra pesada, o filme retrata muito bem os dramas da adolescência.
Albergue Espanhol - um mix de culturas européias constrói uma interessante comédia.
Raízes do Brasil - a vida de Sérgio Buarque de Hollanda é cheia de pormenores interessantíssimos.
Mar Aberto - merece destaque por ter sido uma produção com duas pessoas na equipe técnica e muito empenho em realizar um filme de suspense com tubarões e sem efeitos especiais.
Encantadora de Baleias - uma tribo neozelandesa com uma cultura muito diferente da ocidental mostram valores maiores que questões culturais.
Monsieur N - o fim da vida de Napoleão como você nunca viu.
Capitão Sky e o mundo de amanhã - Filme com cenários digitais. O humor canalha é divertido. E com Jude Law como herói. Quer mais?

Menções honrosas:
Separações - uma das melhores comédias românticas que eu já vi ¿ e é brasileiríssima!
Cazuza: o tempo não pára - apesar de o cantor ser endeusado, vale a pena.
A janela secreta - Johnny Depp é sempre Johnny Depp.
Encontros e Desencontros - o segundo filme de Sofia Coppola foi superestimado pela crítica, mas não deixa de ser uma graça.
Moça com brinco de pérola - Colin Firth já chama atenção, mas a fotografia sem igual é uma atração a parte.
Igual a tudo na vida - Woody Allen não poderia faltar na minha lista.

P.S.: nesse ano eu vi o primeiro e o último filme de Jean Luc Godard. Primeiro eu vi o último, Nossa Música, o qual eu não gostei (talvez porque não tenha entendido, mas tem filmes que eu não entendo e gosto mesmo assim). Essa semana eu assisti a Acossado, o primeiro filme do diretor francês, e surpresa: eu gostei! Certas pessoas disseram que Godard é chato e eu concordei, mas retiro o que disse, então afirmo: Godard não é para todos...

:: Andressa Priscila :: 4:01 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Quinta-feira, Dezembro 02, 2004 :: :: :: ::

A Pasta


Às vezes é bom mudar. Fazendo uma verdadeira reorganização dos meus pertences, eu procurava jogar fora o que não mais me é útil ou guardar por mais anos e anos o que tenho pena de me desfazer, até pensar que eu tenho tranqueiras demais novamente. Dentre as mais diversas quinquilharias, encontrei muitas coisas que rememoram as fases mais exóticas da minha vida. Inebriada com o ar mofado do meu quarto ao avesso, deparei-me com uma pasta preta com manchas de bolor, um cheiro desagradável e vários quilos de papel em seu interior. Não me lembrava daquele peso esquecido no fundo do meu baú.
O peso dos sonhos de uma pré-adolescente absolutamente comum. O peso de uma marionete da Indústria Cultural, dos desejos impressos para serem consumidos por mocinhas inocentes e sonhadoras, das verbas que desviei, ao deixar de comprar guloseimas na cantina do colégio para alimentar meu vício. Ainda reconheço aquele sorriso. Leonardo DiCaprio continua o mesmo, do jeito que o deixei. Os olhos azuis naturalmente reluzentes brilhavam sob o reflexo da luz no plástico. Não pude deixar de fazer uma auto-análise daquela época. Tempos românticos, em que eu queria ser a Rose de Titanic, ou a Julieta de Romeu + Julieta.
Devo ter mais fotos do Leonardo DiCaprio do que fotos de mim mesma, o que não é motivo de orgulho. Mas não procuro ver com maus olhos também. Minha paixão por cinema vem dessa época. Se antes conhecia os filmes pelos atores (bonitos), hoje os conheço pelos diretores, principalmente. Meu gosto mudou, mas ainda guardo resquícios da mocinha romântica que se apaixona pela atmosfera cinematográfica, mesmo que ela não seja estampada por rostinhos bonitos. Até porque, a beleza transcende um par de olhos azuis e madeixas douradas. Acredito, inclusive, que esta avaliação superficial da beleza ofenda as pessoas realmente belas. Já me perdoei por não pensar assim aos doze anos.
O que me preocupa é que as garotinhas crescem assim. É uma fase que não passa. Outro dia, vi uma página na Internet de fãs do Big Brother. E aquelas celebridades enlatadas que mal aparecem na mídia, já têm fã-clube? Pior, ficam famosos sem ter talento para nada além de sorrir para os fotógrafos. Os fãs os adoram sem nem saber o porquê. Pessoas que acumulam muito mais coisas do que a minha simplória pasta. Eu não gosto da palavra fã, prefiro me declarar admiradora. Admiro Woody Allen, Luís Buñuel e Ingmar Bergman, por exemplo. Mas eu me justifico dizendo que todos eles fizeram filmes fantásticos, porém nem tudo é perfeito, então pode se assistir a um Buñuel que não é genial.
O mais engraçado é que figuras como o esquálido e desengonçado Woody Allen me parecem sedutoras, muito mais do que aqueles galãs de filmes água com açúcar, que mesmo com uma figura harmoniosa, são apenas padrões de beleza clichê. Se antes eu queria fazer cinema porque queria que a minha vida fosse um filme, agora quero fazer com que a vida seja um filme, e que estes retratem as peculiaridades, os amores, os pesares, as injustiças e as belezas do mundo. O mundo não é o do sorriso maroto de Leonardo DiCaprio. Os caminhos que o cinema vêm trilhando muitas vezes o levam a direções equivocadas, indo parar num mundo de big brothers. A minha sorte é que esse mesmo mundo dá muitas voltas. É por isso que eu digo: às vezes é bom mudar.

:: Andressa Priscila :: 12:33 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Quarta-feira, Novembro 24, 2004 :: :: :: ::

O homem que amava as mulheres


Como eu poderia viver sem as mulheres? Nunca considerei essa hipótese por mais de trinta segundos. Talvez quando Ana fez um escândalo no escritório, no momento em que percebeu que eu não mais fazia parte da relação. Ela me fez passar por uma situação muito embaraçadora. Situação essa que parecia uma longínqua lembrança, à noite, nos braços de Soraia, entre beijos e goles de champanha.
Eu odeio quando elas se fazem de vítima. Nunca obriguei Ana a fazer nada. Não tenho culpa de que as mulheres são vulneráveis, não resistem a certas palavras doces e uma taça de champanha. Eu não as embebedo. Elas fazem por que querem. Soraia, a recepcionista do escritório, certamente sabe do escândalo de Ana, mas meu sorriso dissipou qualquer sombra que ela visse em mim. Ou então, confirmou minha índole, e isso a atraiu.
Sou um apaixonado pelas mulheres confesso. Francamente, não vejo mal nisso. Mas Virgínia via. Tão próxima e tão distante simultaneamente. Ela é tímida, doce, do tipo que fala suavemente, quase sussurrando. Ela sorria discretamente, balançava seus cabelos castanhos e observava tudo o que acontecia ao seu redor atentamente, olhando pelos cantos dos olhos. Que mulher irresistível! Não vou dizer que ela era a mais linda, a mais charmosa de todas, porque todas as mulheres são especiais. Eu diria que, para uma mulher chamar a minha atenção, ela precisa ser mulher apenas.
A primeira vez que vi Virgínia foi num café. Ela estava sozinha, parecia impaciente, não parava de consultar o relógio. Ela bebia o seu frappé com tanta delicadeza! Parecia uma criança, rindo sozinha e brincando com o canudo. Eu dava qualquer coisa pelos seus pensamentos. De certo, ela pensava no Quebra-Nozes, porque saiu do café a passos rápidos, em direção ao teatro que fica a poucas quadras de lá. Eu a segui, obviamente, e logo comprei um ingresso para a apresentação daquela noite. Foi assim que descobri que Virgínia, o nome que tinha no cartaz, era a prima ballerina da companhia. Eu a reconheceria entre mil mulheres. Não tive dúvidas quando a vi despontar aos rodopios, resplandecente, como a alegre Clara.
Comprei-lhe flores, chocolates, champanha, tudo para me aproximar dela. Assisti à apresentação inúmeras vezes, mas por alguma razão, Virgínia me rejeitava, era indiferente. Ela quase não fitava meus olhos. Eu não tardei a descobrir porque. Ela era sobrinha de Madalena, uma de minhas primeiras namoradas. O fim foi traumático. Madalena sempre foi dependente das outras pessoas, e não foi capaz de compreender meu espírito de liberdade. Certa vez ela me disse que sua ruína foi o meu olhar. Quando vi as duas juntas entendi tudo. Uma pitada de desilusão e uma boa dose de amargura dissuadiram a mocinha a não chegar perto de mim.
Virgínia tinha toda a esperança e otimismo que sua juventude ostentava. Os dissabores da tia não poderiam ser capazes de fazê-la reprimir a inevitável atração. Primeiro porque tudo o que é proibido é mais excitante, e depois, eu quase sempre tive as mulheres que desejei. Não seria aquela jovem mulher na primavera da inocência, que iria resistir aos encantos do amor, ou aos apelos da carne.
Passamos a nos ver furtivamente, quase todos os dias. Quanto mais nos víamos, mais aquela flor me encantava. Virgínia era tão inocente, que eu a apresentei a vários acompanhantes da vida. Eu diria que formalizei encontros inevitáveis. O primeiro deles foi o álcool. Ela se entusiasmou tanto com o champanha, que seu desejo se tornou insaciável. Ou quase, até eu concluir que ela estava demasiadamente bêbada. Não andava a passos delicados de bailarina, não demonstrava o pudor da educação hipócrita. Estava livre. Rapidamente ela passou a controlar o poder que o álcool exercia nela.
Virgínia tinha um espírito inquieto, mudava de humor constantemente, era sempre imprevisível. Depois de meses fazendo charme para me prender, e fazendo charme para me afastar, de súbito, ela teve um arroubo de paixão. Era um fim de tarde chuvoso, nós estávamos caminhando na praia, e a chuva nos pegou desprevenidos. Chegamos encharcados à minha casa. Os olhos de Virgínia brilhavam, ela observava tudo minuciosamente e, como que despertando de um sonho, ela me disse que tinha medo de morrer sem ter vivido tudo o que sonhara viver. Eu a beijei, acariciei seus cabelos, e falei que ela deveria tirar a roupa molhada. Virgínia sorriu e começou a se despir na minha frente. Ela ficou nua no ritmo da música que dançava sensualmente para mim. Não só nossos corpos famintos se uniram, mas nossas almas se atrelaram também. Na varanda, brindamos nus ao amor, deixamos que a chuva percorresse o calor de nossos corpos, sem nos importar com o resto do mundo. O vento soprava forte, espalhando os ares do amor por todos os lados.
Aquela tarde foi sublime. As outras que a sucederam, também. Mas o tempo é implacável com as relações. Vieram cobranças, desconfianças, indiferenças, rejeições, pormenores que aos poucos separaram nossas almas, que pareciam indivisíveis. A separação de corpos logo foi inevitável. Virgínia foi perdendo a graça. Eu não conseguia desejar uma mulher que mal me cumprimentava, já ia logo gritando suas suspeitas, seu ciúme exacerbado, como se toda a vizinhança merecesse satisfações da nossa vida conjugal.
Eu não admitia que ela me chamasse de infiel. Sempre fui leal aos meus sentimentos, e enquanto estive com uma mulher, não deixei que outra me possuísse. Eu apenas tenho relacionamentos próximos um do outro, mas não concomitantes. Não foi Leila que acabou com o meu relacionamento. Ela apenas era ela mesma. Uma vendedora de uma perfumaria, que quando eu passava perto, ficava inebriado, não sei se pelo aroma, ou se pela encantadora mulher. Eu amei Virgínia, não me arrependo de nossa relação. Eu acredito que os relacionamentos, quando perdem o frescor da novidade, vão descolorando a vida, até que ela se torna uma completa sombra.

Conto livremente inspirado no filme "L' Homme qui Aimait les Femmes" de François Truffaut.

:: Andressa Priscila :: 11:16 AM

[:: Sua vez sua voz:: ]

:: :: :: :: Domingo, Novembro 14, 2004 :: :: :: ::

Vento no vácuo


O rastro sem lógica demonstrava sua confusão emocional. O dia não era dos mais bonitos, algumas nuvens acinzentavam a paisagem e anunciavam a possível chuva. Ela estava tão cinza quanto o dia. A melancolia escondia o sorriso de outrora. Não sabia para onde ia, seus passos a levavam a um nada maior do que o nada que sentia dentro dela.
Os passos firmes e a expressão sóbria disfarçavam a fragilidade da alma, denunciada pelos olhos brilhantes e tristes. Um turbilhão de idéias passava por sua cabeça. Não precisava se esforçar muito para lembrar do perfume que antes a inebriava. Todas as manhãs sentia-o tomar posse do corredor, do elevador e, aos poucos, de sua alma e de seu juízo.
Se a indagassem sobre como se apaixonou por ele, não saberia explicar. Só diria que o amor é um sentimento que seduz, ilude, parece algo simplório, doce, mas que te leva a um desgosto vicioso. Quanto mais ele te machuca, mais se precisa dele para melhorar. Então ela se lembrou de João e de sua própria ingenuidade. E desejou que João não fosse seu vizinho, desejou não ter nascido, desejou ter morrido, desejou que João não tivesse nascido, desejou que João tivesse morrido. E chorou.
Nada apaziguava a dor da rejeição. De que adiantavam os momentos felizes se agora era justamente isso que mais a feria? As lembranças dantes consideradas motivo de alegria se tornaram o pesadelo do presente, talvez do futuro. Aliás, futuro nebuloso para Violeta. Antes de João tiveram outros. As compatibilidades pareciam perfeitas, e os defeitos pareciam minimizáveis. Violeta sempre se iludiu. Mesmo sabendo que as relações estavam fadadas ao fracasso, ela insistia.
Violeta se culpava, culpava os homens, culpava o mundo. E continuava sofrendo. A idéia de não ser amada, de estar sozinha e abandonada a assolava. Violeta já não tinha mais esperança nem em João, nem nos outros. A culpa é do amor, que traz mais dores do que prazeres.
Violeta sentou-se na areia, vencida pela dor. Entregou-se à força da maresia, que desalinhava seus cabelos. Uma sensação de tempo perdido a perturbava ainda mais. Definitivamente, a solução seria não ter nascido. Esse mundo não era para Violeta. Quando ela percebeu que o amor não existe, o desgosto das desilusões anteriores amargou mais o sabor da vida. O tempo perdido consumia o resto de esperança que ela poderia cultivar.
A vida de Violeta não fazia mais sentido. Ela não conseguia assimilar a visão deturpada que ela insistia em acreditar ser real. O mundo é pior do que ela pensava, pior do que ela poderia suportar. E pensou em João, e sentiu seu cheiro, seu beijo, seu corpo. Mas João não estava ali. Era só o vento, o mar, a areia e Violeta. Eles segredaram algo que ninguém mais entenderia, tornaram-se cúmplices do sofrimento. A delicada Violeta ficou violenta. Deixou a razão escapar. Os atos eram passionais. E deitou-se na areia e chorou todas as mágoas. Não tardaria muito, um tal José, ou Caio, Eduardo, até mesmo outro João a faria esquecer o João passado, para chorar pelo João futuro.

:: Andressa Priscila :: 1:40 PM

[:: Sua vez sua voz:: ]


:: Fale comigo ::

:: Blogs Favoritos

Ameliee
Absolutamente Sara
Asterix
Bastian
Bloco do eu sozinho
Câmera Obscura
Carol Eller
Casa de Contos
Cherry
Cartolina
Conversa de Mulheres
Dezessete do Oito
Do lixo ao luxo
Elogio à Antipatia
Em Paz & Sorrindo
Fragmentos de um amor bom
Fui pensar
Imagens dos textos do cotidiano
Janela Indiscreta
Jornal-Diário
Lady of Dreams
Lanterna de Diogenes
Lelê
Literal Mente
Me-nina
Mundo de Sam
Nexos
Ópio
O q me irrita
Os Canastras
Ser Somente Mulher
Só Críticas
Sushi
Tainted-love
A última a saber
1000 vezes favela


:: Links

Cinema em Cena
Cineminha
Adoro Cinema
Cineclick
Adoro Cinema Brasileiro
E-pipoca
Contracampo
Coisa de Cinema
Cinema com Rapadura

:: Flogs

Sam
Bastian
Flavicha
Vasconceloz
Ice Hawk
Yu




:: Arquivos